Exposição destaca últimos dias no bunker de Hitler

Vários andares embaixo da terra, milhares de pessoas se amontoam no bunker sob a estação de trem Anhalter Bahnhof, em Berlim, e torcem pelo fim dos bombardeios. Os dias se passam sem comida, e as pessoas aguardam num espaço imundo e fedorento, cheio de fezes, esperando autorização para retornar à superfície.

A apenas dois quilômetros dali acontece uma grande festa. No Führerbunker, o bunker de Adolf Hitler, o clima é de alegria, ou de um relaxamento meio perverso de fim de mundo. Fato é que aqui a champanhe rola solta, como se a vitória estivesse próxima. A realidade não poderia ser mais diferente, mas, afinal, é o dia do aniversário do Führer.

Eram assim, extremos e inacreditáveis, os contrastes em Berlim nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial. Os dois bunkers já se tornaram atrações turísticas há muito tempo, mas agora a exposição Dokumentation Führerbunker quer mostrar como foram os dias finais no abrigo antiaéreo de Hitler.

Sem sensacionalismo

A nova atração do Berlin History Bunker, perto da Anhalter Bahnhof, foi inaugurada nesta sexta-feira (28/10). Ela evidencia essas contradições ao contrastar as paredes frias de concreto do abrigo antiaéreo civil com as generosas instalações do bunker de Hitler. Durante a visita guiada de uma hora e meia pelos subterrâneos históricos são contadas histórias da guerra que raramente são mencionadas em documentários sobre o nazismo.

A principal atração da nova exposição é o escritório de Hitler, o local onde, em 30 de abril de 1945, o ditador cometeu suicídio. O escritório foi reconstruído da forma mais fiel possível, apesar de estar há cerca de dois quilômetros do local original. Ele parece pequeno e atípico para um ditador conhecido pela megalomania. Sobre a escrivaninha está dependurado um retrato de Frederico, o Grande – mas até o ídolo de Hitler parece meio espremido nesse ambiente apertado.

"Isso aqui não é um showroom do Hitler, mas um projeto ambicioso de uma associação que se dedica à história. Por isso os visitantes não podem passar rapidamente através da exposição e ir logo para o escritório de Hitler. É necessário participar, antes, de uma longa visita guiada", explica Enno Lenze, da associação Historiale, responsável pela mostra.

Lenze ressalta que a exposição não tem nada de sensacionalista. Ele é frequentemente acusado de querer ganhar dinheiro fácil usando o nome de Hitler, uma acusação que ele refuta com veemência. "Eu poderia ter comprado uma Ferrari com o dinheiro que investi nesse projeto. Mas preferi fazer algo útil com o dinheiro."

Wieland Giebel, presidente da associação, também afirma que a mostra visa exatamente o contrário do que muitos afirmam. "Não queremos um show sobre Hitler. Apenas queremos mostrar às pessoas como eram as coisas no fim da Segunda Guerra. Por isso também não permitimos que as pessoas entrem no escritório reconstruído de Hitler. Elas apenas podem vê-lo através de uma vitrine", explica.

"Não somos o museu de cera da Madame Tussauds. Lá as pessoas podem ver Hitler como uma figura, rodeada por astros pop e outros bonecos de cera. Quem quiser ver Hitler que vá para o Madame Tussauds."

Neonazistas

O mito criado em torno do bunker de Hitler, na última década, age como um ímã sobre os visitantes da capital alemã. Todos os dias, milhares de turistas procuram a placa no estacionamento da rua Gertrud-Kolmar-Strasse que sinaliza onde ficava a entrada do bunker.

Muitos berlinenses temem que esses lugares possam se tornar locais de peregrinação de neonazistas. Lenze sublinha que esse não é de jeito algum o propósito da exposição e descarta que neonazistas se interessem por ela. "Eles normalmente não querem ver onde Hitler morreu, até porque muitos deles acreditam que ele não morreu, mas que conseguiu escapar da Alemanha", argumenta.

"E mesmo se eles se interessassem, seria bom que viessem a um lugar como este para se informar sobre o que de fato aconteceu. Afinal, nós mostramos o extremismo como ele realmente foi."

De Berlim a Braunau

Lenze afirma que a exposição serve como local de esclarecimento e, assim, ajuda a combater o extremismo de direita. Giebel acrescenta que, durante os anos de trabalho da associação Historiale, apenas uma vez um pequeno grupo de skinheads visitou a exposição no bunker civil da Anhalter Bahnhof. Ele não acha que alguma coisa vai mudar agora, com a ampliação da exposição para o escritório de Hitler.

"O turismo em torno de Hitler e a peregrinação de extremistas de direita só serão combatidos se exposições como esta forem feitas. Aí desmistificamos o mito. Por isso, seria, na verdade, útil se as pessoas fizessem algo parecido na casa natal de Hitler, em Braunau, na Áustria." Em Braunau, após repetidos incidentes envolvendo neonazistas, o governo austríaco resolveu a casa natal de Hitler.

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