Na Grécia, um capítulo esquecido da barbárie nazista

O menino tem apenas quatro anos, mas deixa uma marca quando aparece na televisão. O tema do programa Die Anstalt, da rede estatal alemã ZDF, é Grécia, a crise do euro e as reparações de guerra. Ele mostra de forma curta a história de Distomo, uma pequena cidade no centro da Grécia, onde os nazistas foram tão cruéis como em nenhum outro lugar do país. Quase ninguém sabe disso.

Durante a exibição, o tempo todo pode ser visto no fundo da imagem esse menino. Seu nome: Argyris Sfountouris. Quando, em 1944, as tropas da SS colocaram fogo em Distomo, estupraram mulheres e mataram seus filhos, a criança estava lá. Os pais dele foram brutalmente assassinados, assim como 32 outros parentes seus. Sua irmã o salvou no último segundo da casa em chamas.

O programa foi assistido também pelo jornalista alemão Patric Seibel. Aos 76 anos, Argyris conta ao vivo o que aconteceu em sua aldeia na época e que ele até agora não recebeu indenização ou pedido de desculpas oficial do governo alemão. Seibel se emocionou ao ouvir a história. E, após o programa, decidiu conhecer Argyris Sfountouris melhor.

O massacre

Patric Seibel investigou o passado de Argyris – e o terror nazista na Grécia, pouco lembrado hoje em dia. A história de Distomo é particularmente trágica e cruel. Em 10 de junho de 1944, tropas alemãs da SS receberam a ordem de matar todos os habitantes da aldeia e acabar com o povoado. Aquilo era um ato de vingança por um ataque de combatentes da resistência grega que matara sete soldados alemães. O massacre de Distomo terminou com 218 civis mortos, quase nenhum dos moradores do vilarejo escapou.

Seibel descreve esses eventos históricos em seu livro. O foco, entretanto, é Argyris Sfountouris, cuja história de vida impressionou profundamente o jornalista, como ele mesmo enfatiza em seu livro, intitulado Ich bleibe immer der vierjährige Junge von damals ("continuo o menino de quatro anos de então", em tradução livre). A frase é do próprio Argyris.

"Quando olho para trás e lembro o que aconteceu, não penso com o intelecto que tenho hoje", diz Argyris em entrevista à DW. "Mas como eu, na época, tentei entender essas experiências."

Com oito anos, ele deixou sua Grécia natal e foi para um orfanato em Trogen, na Suíça. Nele, cresceu junto com outros órfãos de guerra, foi para a escola, para a universidade e depois trabalhou como professor de física. Ele também trabalhou como voluntário em vários projetos de ajuda ao desenvolvimento na África e na Ásia.

Um santo moderno

No livro, publicado mês passado na Alemanha, a história pessoal de Argyris se confunde com a grega. Mesmo quando morava em Zurique, acompanhava os acontecimentos políticos na terra natal. Na década de 1970, prevalecia a ditadura militar no país. Argyris Sfountouris contribuía com a sua parte para a luta contra a ditadura grega traduzindo para o alemão textos proibidos na Grécia.

Mas não só sua história de vida é notável. Patric Seibel também foi surpreendido pela personalidade forte de Argyris Sfountouris. "Apesar de ter, como criança, experimentado algo terrível, ele é um homem que impressiona incrivelmente, por sua bondade e sua tranquilidade", diz o autor.

"Ele não tem nada de amargo. Embora também tão tenha esquecido nada. Ele permaneceu persistente, é um homem com princípios muito claros", continua. "Talvez o termo seja um pouco forte demais, mas, para mim, ele se parece com um santo moderno."

Luta por justiça

Quando Seibel fala sobre a perseverança de Argyris Sfountouris, ele também se refere à luta dele pelo pagamento das reparações da Alemanha para a Grécia. A história do menino de Distomo fez com que o autor passasse a pesquisar intensamente os crimes de guerra dos nazistas na Grécia.

E também o que aconteceu – ou não aconteceu – após a Segunda Guerra Mundial. Um dos capítulos do livro é dedicado à questão dos pagamentos de indenizações do lado alemão e à posição intransigente da Alemanha em considerar este assunto delicado como encerrado.

"A culpa alemã é clara, legal e moral, penso eu. Mas também não acredito que o atual governo vá mudar sua atitude", pondera.

Mas Argyris Sfountouris não desiste da luta. Há 20 anos ele tenta se fazer ouvir pelos políticos alemães. Ele aprova o passo do governo grego, ao levantar a questão publicamente, mesmo que para muitos tenha sido no pior momento possível. E ressalta que a Grécia tenta se recuperar financeiramente e lutar pela confiança de seus parceiros da UE.

"É difícil encontrar o momento certo. Para os alemães, não há momento certo. Então, tem que haver alguma pressão. Eu disse a Alexis Tsipras, quando o visitei no ano passado, que acredito que esta reivindicação deve se dar a nível internacional", conclui.

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