Música e revoluções no Beethovenfest

Ao conversar com alguns compositores sobre a assim chamada "Primavera Árabe", a pianista Seda Röder se surpreendeu. "Eu achava que, com as minhas raízes culturais turcas, eu tivesse uma noção dessa revolução." Na verdade, ela admite, é difícil entender esse processo no Oriente Médio, assim como se orientar em meio à avalanche de informações. "Talvez a música ajude", arrisca.

Para seu recital multimídia no Beethovenfest, Röder pediu a artistas de cinco países que expressassem em música o que a "Primavera Árabe" significa para eles.

O egípcio Amr Okba acha que tudo está ainda pior hoje do que antes da revolta popular de 2011. Sua obra Facebook critica o crescente radicalismo na sociedade e a influência das redes sociais. O compositor também vê criticamente o papel desempenhado pelos Estados Unidos no Egito.

Röder descreve assim a peça de Okba: "Eu toco no piano um tema em acordes que vai se intensificando cada vez mais. Mas os acordes estão sendo sempre interrompidos bruscamente, e tudo volta ao começo. Quando se tem finalmente a sensação de que o tema vai continuar, soa o hino nacional americano." Os demais compositores no programa vêm do Bahrein, Síria, Tunísia e Turquia.

Ascensão da burguesia

Durante quatro semanas, a partir desta sexta-feira (09/09), a influência das revoluções sociais sobre a música é o tema do festival Beethovenfest, em Bonn.

"Os pensadores da Revolução Francesa já sabiam que se pode manipular as pessoas com música", lembra o musicólogo Stefan Aufenanger. "Em manifestações de massa e festas revolucionárias, precisa-se de música. Ela tem que ser simples, compreensível e entrar fácil no ouvido."

Enquanto a música profana clássica tinha seu posto tradicional nas cortes da nobreza, nos anos anteriores à Revolução Francesa a burguesia ia se fortalecendo. Isso se fez notar sobretudo na ópera, aponta Aufenanger. Estavam na moda os libretos trazendo ou personagens modernas, burguesas, ou da Grécia antiga, em que se tematizava o fim da tirania. Mais tarde os próprios temas da Revolução Francesa ganhariam o palco.

No centro, a Eroica de Beethoven

Ludwig van Beethoven (1770-1827) também era um paladino dos ideais de liberdade, igualdade, fraternidade. Sua Sinfonia nº 3, Eroica tem conexões diretas com a Revolução Francesa. Originalmente o músico natural de Bonn a dedicara a Napoleão Bonaparte, mas retirou a homenagem decepcionado, depois que o primeiro-cônsul se proclamou imperador da França.

Também do ponto de vista musical, a Eroica merece o rótulo de revolucionária. Em seguida às ousadias harmônicas e formais do movimento inicial, o segundo é uma lenta marcha fúnebre – algo que jamais se vira antes, numa sinfonia. Com 40 a 60 minutos de duração, ela também é a obra do gênero mais longa composta até então.

Como obra central do Festival Beethoven em 2016, a Sinfonia nº 3 será apresentada em diversas versões – do original orquestral a um trio de jazz, passando pela transcrição de Franz Liszt para piano solo.

O forte caráter emocional de formas musicais como a marcha fúnebre e os enormes contrastes dessa "música da revolução" também marcaram gerações subsequentes de compositores. "Beethoven influenciou Hector Berlioz nas mudanças dinâmicas, também na instrumentação opulenta, além do clima musical sombrio."

Essa tradição de adotar recursos sonoros bombásticos se estende, por exemplo, até o russo Sergei Prokofiev (1891-1953), que em 1936 empregará até metralhadoras em sua Cantata pelo 20º aniversário da Revolução de Outubro, a fim de representar com um máximo de realismo as batalhas históricas.

Música das revoluções, revoluções da música

Mas não é apenas no contexto das revoluções políticas que a música revolucionária nasce. Certas obras fazem jus a esse título por os seus autores terem inventado novas sonoridades, ritmos ou harmonias, ou por ampliarem as possibilidades da produção através de novas técnicas ou de meios eletrônicos.

No início do século 20, em plena época de inovações tecnológicas, o russo Alexander Scriabin (1872-1915) sonhava com uma "obra de arte total" integrando música, texto, dança, cores e cheiros. Após a Primeira Guerra Mundial, Arnold Schoenberg (1874-1951) queria romper com o passado recente, também musicalmente. Para tal, desenvolveu o método dodecafônico de organização dos sons, em substituição ao tradicional sistema total.

Luigi Nono (1924-1990) e Karlheinz Stockhausen (1928-2007) igualmente entraram para a história da música da música como revolucionários, a partir de seus ousados experimentos na década de 1950. Entre outras inovações, ambos usaram sons eletrônicos e gravações magnéticas como "instrumentos" adicionais.

O romeno György Ligeti (1923-2006), por sua vez, protagonizou uma espécie de contrarrevolução nos anos 60 – em pleno regime dos rigores ("cacofonias", diriam alguns) da composição serial na Europa –, ao ousar propor obras orquestrais iridescentes, quase impressionistas, verdadeiros monstros de beleza sonora.

Sob a direção de Nike Wagner, bisneta do – revolucionário – compositor Richard Wagner, tanto a música das revoluções como as revoluções na música têm espaço na edição de 2016 do Beethovenfest.

Lado a lado com a Eroica, constam do programa, entre muitas outras, La fabricca illuminata, de Nono, e Lontano, de Ligeti. E "Songs of Spring", o recital com o piano de Seda Röder, violino, cantora, recitante e vídeo, sobre a "Primavera Árabe" – uma revolução que, para muitos, ainda está longe de terminar.

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