Referendo na Itália pode ser início do fim da zona do euro

Depois que os britânicos votaram pelo Brexit, a saída do Reino Unido da União Europeia (UE), e os americanos elegeram Donald Trump, o referendo na Itália neste domingo (04/12) é visto como um pleito decisivo. Se os italianos votarem pelo "sim", o país pode passar por reformas profundas, acredita o primeiro-ministro Matteo Renzi. Se o "não" vencer, isso pode significar o início do fim da zona do euro.

A maioria das pesquisas de opinião aponta para a vitória do "não", ou seja, para a rejeição de uma reforma constitucional, que reduziria o poder e o tamanho do Senado, a câmara alta do Parlamento. Junto a uma modificação da lei eleitoral, que entrou em vigor em meados deste ano, a nova reforma deve facilitar o trabalho do governo.

No futuro, o partido que receber 40% dos votos obtém maioria absoluta no Parlamento. Fortalecida dessa maneira, a legenda poderia levar à frente reformas urgentes.

Ponto fraco

Reformas sempre foram um ponto fraco da política italiana. Nos últimos 70 anos, o país passou por um total de 63 governos. "Muitas vezes, os governos fracassaram justamente no momento em que tentaram abordar reformas", afirma Christian Dunstmann, professor de Economia do University College de Londres e que também lecionou durante vários anos na Itália. "Nas últimas cinco décadas, vimos que reformas importantes e necessárias na Itália só são implementadas com muita dificuldade", explicou Dunstmann.

Renzi havia anunciado que iria renunciar se os italianos votassem pelo "não", mas depois voltou atrás.

Os mercados financeiros estão nervosos diante da votação. Os juros sobre títulos soberanos italianos duplicaram para mais de 2% – uma indicação de que os investidores esperam um aumento da incerteza.

O argumento dos mercados: um "não" seria uma vitória para os populistas e os eurocéticos, que poderiam vir a assumir o poder na próxima oportunidade. O Movimento 5 Estrelas (M5S), maior partido de oposição italiano, quer que os cidadãos votem sobre a permanência da Itália na zona do euro.

A probabilidade de que a Itália deixe a união monetária é estimada atualmente pela empresa de consultoria Investment Consulting Sentix em 19,3%, ou seja, maior do que nunca. A Sentix se baseia numa enquete realizada com mil profissionais da área financeira.

Alta taxa de desemprego, baixo crescimento

Renzi assumiu o poder há quase três anos como um reformador. "Ele pôs muita coisa na direção certa, como a reforma do direito trabalhista", apontou Dunstmann. "Isso tornou mais fácil para empresas demitirem pessoal, por exemplo." Além disso, houve alívios fiscais para pequenas e médias empresas.

"O governo fez o seu dever de casa", afirmou também Jörg Buck, diretor da Câmara de Comércio Itália-Alemanha em Milão. "O desejo claro da indústria é que o governo Renzi dê procedimento a seu trabalho nesse sentido." E isso exigiria justamente a reforma constitucional que está sendo votada no referendo. "Do ponto de vista das associações empresariais, esta seria a mãe de todas as reformas", declarou Buck à DW. Segundo ele, mais do que questões de conteúdo, o que está em jogo para os defensores do "não" é "afastar o governo".

Na verdade, a má situação econômica do país enfraquece a posição de Renzi. Estão desempregados 12% dos italianos. Entre os jovens, a taxa chega a quase 40%. Hoje, o Produto Interno Bruto (PIB) da Itália é menor que há dez anos. E a dívida pública passa de 130% do PIB. Na zona do euro, esse é o segundo maior valor depois da Grécia.

Voto de protesto

Para muitos italianos, um "não" no referendo oferece a possibilidade de desabafar a sua ira. "Não" às reformas neoliberais. "Não" às medidas de austeridade econômica. "Não" ao establishment. "Não" ao euro e à UE. "Trump nos mostrou que se pode vencer contra tudo e contra todos", disse Matteo Salvini, líder da legenda populista de direita Lega Nord.

O Banco Central Europeu (BCE) teme que um "não" possa desencadear um choque financeiro. "Dependendo do grau do choque, temos que considerar se devemos fazer algo ou não", declarou o vice-presidente do BCE, Vitor Constancio. Segundo ele, quatro dias após o referendo, o BCE já poderia enviar sinais em sua reunião do conselho para acalmar os mercados. Uma flexibilização adicional da política monetária poderia reforçar ainda mais as fortes críticas vindas da Alemanha

Além disso, há ainda a crise não resolvida dos bancos italianos, que sofrem devido à montanha de "créditos podres" – empréstimos concedidos sem cobertura – com que têm que lidar. Até o fim do ano, o banco Monte dei Paschi di Siena está tentando levantar capital novo no valor de 5 bilhões de euros – muitas vezes mais que o seu valor de mercado.

Problema euro

Depois do referendo, esse será o primeiro teste para avaliar o clima nos mercados financeiros, assinalou a empresa londrina de consultoria Lombard Street Research (LSR), acrescentando que, no ano que vem, cerca de 70 bilhões de euros em obrigações bancárias italianas irão vencer.

"Mas o maior risco não é o referendo, porém a estagnação econômica", afirmam os analistas da LSR, pois não apenas a Itália seria atingida, mas toda a zona do euro.

"O problema é que, com os atuais países-membros, o euro não pode funcionar e, além disso, é extremamente antissocial", afirmou o economista-chefe da LSR, Charles Dumas, em entrevista à DW. Segundo ele, os alemães precisariam de uma política monetária completamente diferente da dos italianos. "Isso confere aos populistas uma base sólida. Após o referendo italiano, eles terão muitas outras oportunidades de abalar as bases do establishment da UE."

Em março de 2017 haverá eleições na Holanda; em abril será a vez da França; e então a Alemanha, no segundo semestre. Em cada um desses países há um forte partido populista de direita que rejeita o euro e a União Europeia. Na Itália, as próximas eleições regulares deverão ser realizadas no início de 2018 – pressupondo-se que Reniz consiga permanecer no poder até lá.

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