Opinião: Encontro do G20 foi amostra do que vem por aí

O ministro alemão, Wolfgang Schäuble, certamente não esperava que as coisas se dessem dessa maneira. Quando ele abriu o encontro de ministros das Finanças do G20 na sua terra natal, ele ainda estava convencido de que chegaria a um consenso com os Estados Unidos. O compromisso com o livre-comércio e contra o protecionismo deveriam estar na declaração final, como sempre esteve.

Mas Schäuble não conseguiu arrancar esse compromisso do seu colega americano, Steven Mnuchin. O único consenso possível foi em torno de uma formulação fraca, de que se trabalha para fortalecer a contribuição do comércio à produção econômica. Nada mais do que uma obviedade.

Pelo menos uma coisa ficou clara em Baden-Baden: a nova equipe na Casa Branca está falando sério. O presidente Donald Trump foi explícito no seu encontro com a chanceler federal Angela Merkel: até aqui, vocês, alemães, foram os melhores negociadores. É hora de os americanos melhorarem nesse aspecto. Uma amostra dessa nova postura pôde ser vista em Baden-Baden. Mesmo Schäuble, um estrategista acostumado ao palco político, não conseguiu romper o bloqueio americano.

Mas apresentar o encontro dos ministros das Finanças como um fracasso é injusto. Encontros desse tipo sempre têm um caráter informal, e os documentos finais não são vinculativos, mas uma espécie de modelo para a continuidade dos trabalhos do G20. E mesmo que, nos anos anteriores, sempre tenha existido o compromisso com o livre-comércio e a eliminação de barreiras comerciais, a tendência ao isolamento há muito é reconhecível. Desde 2008, a Organização Mundial do Comércio (OMC) já computou mais de duas mil medidas que limitam o livre-comércio. E como o G20 responde por 80% do comércio mundial, uma coisa fica clara: promessas feitas não são cumpridas.

O conflito em torno da política comercial acaba encobrindo outros progressos do G20. Por exemplo, na questão da transparência fiscal ou dos impostos pagos por grandes conglomerados internacionais, os participantes avançaram, e os americanos tomaram parte disso. O mesmo vale para o novo plano de Schäuble para a África: dar mais segurança a investidores privados para que eles percam o medo de se engajar no continente. O apoio a essa iniciativa foi amplo, mesmo que ela não seja um grande lance.

Tudo isso não interessou a ninguém no fim do segundo dia de encontro. A única pergunta era: virá agora uma guerra comercial?

Essa preocupação não pode ser ignorada. Quando o assessor de comércio de Trump chama o deficit comercial dos EUA com a Alemanha de "perigo para a segurança nacional", quando os negociadores americanos empregam "artilharia pesada" já nos preparativos para o encontro de Baden-Baden, então é correto se preocupar.

Essa crítica à Alemanha não é nova. Os antecessores de Trump, George W. Bush e Barack Obama, também já a fizeram, e ela pode ser ouvida com frequência também em Bruxelas. A resposta alemã é sempre a mesma: devemos então fazer produtos piores, que ninguém queira comprar?

A lembrança de que a União Europeia é que é responsável pela política comercial não será ouvida na Casa Branca. Quando a primeira barreira comercial às exportações alemãs for levantada nos Estados Unidos, uma reação de Berlim não tardará. A ministra da Economia, Brigitte Zypries, expressou por estes dias uma fantasia sobre uma queixa na OMC. De fato, isso deve deixar os americanos assustados. Trump só se interessa pela OMC quando ela lhe é útil. Há tempos que o governo americano analisa como pode aplicar sanções ao largo da OMC.

Um ponto dá esperança de que não necessariamente virá uma guerra comercial: a declaração sobre política cambial, que condena manipulações cambiais em favor da própria economia. Isso cria um certo otimismo, pois farpas fortes já foram enviadas de uma lado para o outro do Atlântico quando o assunto era "euro fraco".

O encontro de Baden-Baden foi, portanto, uma amostra do que vem por aí. É difícil imaginar que a cúpula do G20, marcada para julho em Hamburgo, transcorra de forma harmônica se houver ainda mais pontos divergentes a serem debatidos do que os existentes na pauta relativamente modesta de um encontro de ministros.

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