Nuvens ainda são mistério para a ciência

Poucos fenômenos ambientais são tão pouco compreendidos quanto as nuvens. Apesar do papel crucial que elas desempenham no ciclo hídrico e padrões de aquecimento terrestres, os cientistas seguem sendo surpreendidos pela forma como elas se comportam, e por quê. E por isso tem sido uma enorme dor de cabeça tentar prever como o planeta será afetado pela mudança climática.

Essa incerteza é a principal razão por que a climatologia é uma ciência imperfeita: os pesquisadores são incapazes de prever como as nuvens reagirão a um ambiente mais quente e, portanto, impossibilitados de completar suas projeções de um quadro climático futuro.

Em breve, porém, eles disporão de uma nova ferramenta para desvendar os mistérios da atmosfera: nesta quinta-feira (23/03) a Organização Meteorológica Mundial (OMM) coloca online um novo e longamente esperado Atlas Internacional das Nuvens digitalizado, a versão contemporânea de um projeto iniciado há quase 150 anos.

"A última atualização foi mais ou menos 40 anos atrás", conta a diretora científica da OMM Isabelle Ruedi. "Na época não existia internet nem câmeras digitais. Por isso, hoje o velho atlas não é tão acessível aos interessados. Nós decidimos atualizá-lo, integrando os melhores dados disponíveis sobre as nuvens."

O atlas está sendo inaugurado no Dia Internacional da Meteorologia, que em 2017 é dedicado às nuvens. O secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, acredita que a nova publicação proporciona uma nova chance a meteorologistas e cientistas para entender melhor esses misteriosos seres celestiais.

"Através dos séculos, poucos fenômenos naturais têm inspirado tanto o pensamento científico e a reflexão artística quanto as nuvens. Se quisermos prever o tempo, montar um modelo do sistema climático, ou predizer a disponibilidade de recursos hídricos, temos que entendê-las."

A nova versão do atlas reúne pela primeira vez um grande número de observações de alta tecnologia, feitas na superfície do planeta e por satélites no espaço, assim como dados de sensores remotos. Ela é o resultado de um período de consultas, em que fotografias e outras formas de registro foram coletadas por todo o mundo.

Poucos avanços nas últimas décadas

O aspecto mais importante da influência das nuvens sobre os padrões meteorológicos é que elas transportam água de um lugar a outro. Como absorvem água dos lagos e a derramam sobre a terra seca, a perturbação de seu comportamento pode resultar em secas e inundações. As nuvens também modulam o calor na atmosfera, esfriando a Terra ao protegê-la do Sol.

Num relatório oficial de 2012 do Programa de Pesquisa do Clima Mundial, Sandrine Bony ressaltava que os mistérios das nuvens seguem frustrantemente difíceis de desvendar.

"O grau de incerteza nas estimativas da magnitude da sensibilidade climática permaneceu praticamente imutável, nos últimos 30 anos. Embora os modelos estejam melhorando, certos vieses nos modelos de circulações de grande escala têm persistido por muitos ciclos de desenvolvimento."

Os cientistas esperam poder usar as novas informações do atlas para levar adiante quatro iniciativas com o fim de dobrar os conhecimentos sobre o comportamento das nuvens dentro dos próximos cinco a dez anos.

Primeiro, criarão novos testes para medir por que tem havido tanta diferença entre os modelos de previsão do comportamento da nuvens. Em seguida usarão os resultados para reduzir os erros dos modelos e fazer projeções mais confiáveis.

Em terceiro lugar, procurarão entender melhor a conexão entre as nuvens e os processos de convecção que fazem a água evaporar. Seu trabalho também considerará as mudanças de padrões que já ocorrem devido ao aquecimento ambiental.

Diferentes tipos

O atlas disponível online também serve como um "quem é quem" dos diferentes tipos de nuvem, distinguidos segundo sua aparência e a parte do céu em que se formam. Por um lado, são mantidos os dez "gêneros" subdivididos em 100 "espécies", que têm sido adotados há cerca de 100 anos.

Porém novos tipos também foram incluídos, como a "nuvem rolo", longa e em forma de tubo, aparecendo próximo ao solo. Ou a "asperitas", com uma dramática forma de onda, cuja inclusão foi proposta pelos "nebulófilos" amadores da Cloud Appreciation Society.

A edição atual propõe, ainda, cinco novas "nuvens especiais", criadas pelo ser humano ou por fenômenos naturais, como quedas d'água ou vulcões. A "homogenitus", por exemplo, designa as esteiras de condensação deixadas pelas aeronaves.

A OMM espera que seu portal online não só incentive uma maior colaboração na pesquisa das nuvens, como assegure que a mesma terminologia seja empregada por todo o mundo.

"Andaram aparecendo na rede outros atlas que não usam necessariamente a terminologia correta", aponta Isabelle Ruedi. "Para predizer o tempo, é preciso saber como ele está em outros locais do planeta. E aí todos devem estar usando a mesma terminologia."

Também os que observam as nuvens por hobby estão bem servidos no site da OMM, que publicou um guia classificatório – seja para o estudo, seja simplesmente para passar uma tarde preguiçosa.

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