Crânios de africanos, herança macabra da colonização alemã

Quando, durante sua viagem pelo atual Ruanda, na virada do século 19 para o 20, o explorador alemão da África Richard Kandt encontrou um "pigmeu", possivelmente da tribo dos twa, ele foi acometido da febre de colecionador. E então pediu que fosse morto o nativo, que se encontrava em mãos dos alemães, como prisioneiro de guerra dos senhores coloniais.

"Ele mandou separar a carne dos ossos e expediu o crânio do homem imediatamente para Berlim", relata Markus Frenzel, jornalista da emissora MDR. "Kandt estava orgulhoso de haver encontrado um membro de um grupo étnico especialmente raro."

"Prova da inferioridade africana"

Essa história de terror da então África Oriental Alemã trata apenas de um crânio entre os milhares que chegavam de navio ao Império Alemão, vindo das zonas coloniais. Via de regra, a meta do exame dos ossos era provar que as raças africanas eram inferiores às europeias.

Não era comum a pesquisa envolver assassinato, como nesse caso: em geral, cadáveres sepultos eram exumados e suas cabeças, roubadas. Frenzel gostaria de descobrir onde se encontram, hoje, os restos do homenzinho de Ruanda. Há oito anos ele folheia os fichários de arquivos na Alemanha e vasculha os acervos de coleções médicas à busca de pistas dos crânios africanos e de sua procedência.

"Em 2008, encontramos na Universidade de Freiburg e no hospital Charité de Berlim algumas dezenas de crânios da Namíbia", conta o jornalista. "Houve um escândalo, e alguns cientistas foram encarregados de investigar o assunto. Os crânios acabaram sendo devolvidos, mas apenas esses."

Indignação nas redes sociais

Frenzel tinha indicações de que, nas coleções de institutos alemães, havia muitos mais restos mortais humanos oriundos das zonas coloniais. E, de fato, ele e a equipe do magazine Fakt, da TV ARD, fizeram um achado no depósito central da Fundação Patrimônio Cultural Prussiano (SPK, na sigla em alemão): 1.003 crânios da região da atual Ruanda e 60 da Tanzânia.

"Nós simplesmente não queremos, de jeito nenhum, ter essas coisas em nossas coleções, pois elas representam uma visão de ciência que não é a nossa", declarou o presidente da SPK, Hermann Parzinger, à equipe televisiva. Por isso a origem dos ossos será detalhadamente pesquisada, a fim de devolvê-los. Essa foi também uma exigência do embaixador ruandês em Berlim, Igor Cesar, falando à MDR.

Os comentários dos usuários da DW da África Oriental na página do Facebook da redação suaíli revelam emoções fortes em relação ao tema. Ben Kazumba, da Tanzânia, exige: "Eles precisam nos devolver os crânios dos nossos antepassados".

Miraji Mwana Kibinda ficou abalado com a visão dos ossos que ainda se encontram na Alemanha: "Todo o meu corpo treme ao ver esses crânios. Sinto-me ferido ao pensar no que fizeram com nossos ancestrais." Já Dismas Komba discorda: "Seria melhor voltar a enterrar os crânios, eles não têm qualquer significação. Se têm, é só para despertar em nós o amargor perante os crimes contra o nosso povo".

A devolução a Ruanda e Tanzânia poderá demorar, já que antes será preciso investigar as procedências exatas. Tempo demasiado, comenta o jornalista Frenzel: isso vai contra os interesse da Fundação Patrimônio Cultural Prussiano, que no futuro quer realizar grandes mostras com objetos não europeus no planejado Fórum Humboldt de Berlim.

"Eles precisam encerram esse capítulo rapidamente. Afinal, quem vai nos enviar coleções da África para Berlim, sabendo que os próprios ancestrais ainda podem estar no porão?"

De outros Notícias